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Acupuntura alivia a dor alterando mecanismos bioquímicos no cérebro

Como a acupuntura funciona?

A acupuntura tem sido usada pela medicina oriental por milhares de anos, sobretudo no tratamento da dor. Os efeitos benéficos levaram até a Força Aérea dos Estados Unidos a adotarem a acupuntura no tratamento de seus soldados nos campos de batalha.

Mas como a acupuntura funciona em nível celular, ou seja, qual é o mecanismo que faz com que a acupuntura de fato alivie a dor, é uma pergunta para a qual os cientistas ainda não têm uma resposta.

Capacidade do cérebro de regular a dor

Agora, usando imagens captadas do cérebro, pesquisadores da Universidade de Michigan (EUA), conseguiram as primeiras evidências de que a acupuntura tradicional chinesa afeta a capacidade de longo prazo do cérebro para regular a dor.

Os resultados serão publicados no exemplar de Setembro da revista médica Journal of NeuroImage.

Mu-opioides

No estudo, os pesquisadores demonstraram que a acupuntura aumentou a disponibilidade de ligação dos receptores mu-opioides (MOR) em regiões do cérebro que processam e amortecem os sinais de dor – especificamente no cingulato, ínsula, caudato, tálamo e amígdala.

Acredita-se que os opioides que agem contra a dor, como a morfina, codeína e outros medicamentos, funcionam ao se ligar a esses receptores opioides no cérebro e na medula espinhal.

“A maior disponibilidade de ligação desses receptores está associada com uma redução na dor,” explica Richard E. Harris, que é anestesiologista e coordenador da pesquisa.

Uma implicação desta pesquisa é que os pacientes com dores crônicas tratados com acupuntura poderão passar a reagir mais positivamente aos medicamentos opioides, uma vez que os receptores parecem ter maior disponibilidade de ligação,” diz Harris.

Mesmos resultados, explicações diferentes

Esta descoberta também dá um novo estímulo ao campo da pesquisa em acupuntura, seguindo uma grande controvérsia recente sobre estudos que argumentam que a acupuntura simulada seria tão efetiva quanto a acupuntura real na redução das dores crônicas.

“É interessante que tanto os grupos que receberam acupuntura real quanto acupuntura simulada tenham apresentado reduções similares da dor. Mas os mecanismos que levaram à redução da dor em cada um dos casos são radicalmente diferentes,” diz Harris.

Fonte: Diário da Saúde

Laser tem sua eficácia contra a dor comprovada

O laser terapêutico, ou fototerapia com laser de baixa intensidade, acaba de ser comprovado cientificamente como um tratamento eficaz contra a dor.

Um estudo pioneiro realizado no Instituto de Física da USP mapeou, pela primeira vez, a ação terapêutica do laser e descobriu que ele age bloqueando a troca de sinais elétricos entre os neurônios.

Assim, a terapia reduz drasticamente a sensação da dor – após a terapia com laser, a sensação da dor foi reduzida em quatro vezes.

“A eficácia do laser no tratamento da dor já havia sido observada clinicamente, mas nosso trabalho foi pioneiro no esclarecimento dos mecanismos de ação da modulação da dor devido à interação de luz laser com neurônios,” conta Marcelo Pires de Sousa, que fez o estudo em conjunto com a professora Elisabeth Mateus Yoshimura.

O uso da fototerapia com laser é um complemento ao uso de medicamentos para dor, principalmente para a dor crônica, já que esses remédios podem perder o efeito depois de algum tempo de uso.

“Não existe um processo adaptativo para as terapias físicas, o paciente não vai criar resistência a elas”, diz Marcelo referindo-se ao tratamento com laser.

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Zona da dor

Para entender a ação do laser terapêutico contra a dor, foi estudada a região do córtex somestésico primário, área do cérebro em que todas as informações sobre dor, em humanos e em animais, são interpretadas – os testes foram realizados em camundongos.

Para comparação, essa região do cérebro está para a terapia com laser do mesmo modo que a orelha está para a acupuntura – ou seja, reúne pontos que têm reflexo em todo o corpo. Quando a terapia a laser é aplicada nessa área, ela pode tratar a dor em qualquer parte do corpo.

Os resultados mostram ainda que após a fototerapia, a sensação da dor foi reduzida em quatro vezes e o efeito anestésico demorou seis horas para passar. Além disso, não foram identificados marcadores de inflamação e queimadura – o que indica ausência de efeitos colaterais.

“Essa é uma técnica que deveria ser difundida e muito usada, porque só traz benefícios ao paciente”, diz o pesquisador.

Atualmente, o custo para aquisição de um equipamento de terapia a laser de baixa intensidade é de cerca de R$ 8 mil. No entanto, o pesquisador Marcelo Sousa já está trabalhando no desenvolvimento de um equipamento ainda mais acessível.

Fonte: Diário da Saúde

 

Já possuímos em nosso consultório o aparelho Laser de Baixa Intensidade. É uma ferramenta excelente, associado a acupuntura, para combater as dores articulares e musculares.

 

Dia Mundial de Combate ao Câncer – Acupuntura

A acupuntura é uma das técnicas de tratamento da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), que utiliza como ferramenta agulhas metálicas que são aplicadas na pele dos pacientes, em pontos estratégicos (pontos de acupuntura) com o objetivo de melhorar a função dos órgãos, vísceras, glândulas, diminuir ou eliminar a dor e trazer equilíbrio nas emoções.

A acupuntura foi descrita pelos chineses há 5.000 anos e ficou por muito tempo esquecida pela dificuldade da compreensão da escrita chinesa e de entender o seu mecanismo de ação.

O fato de a acupuntura ter apresentado um grande desempenho no alívio da dor aguda e na dor crônica, fez com que ela não ficasse esquecida para sempre.
Com o avanço da Medicina e das diferentes especialidades paralelas como a Bioquímica, foram descobertos os neurotransmissores, como a serotonina, a B-endorfina, a dinorfina e muitas outras substâncias.

Através dessas descobertas foi possível perceber que a picada da agulha na pele em um ponto especial produzia a liberação destas maravilhosas substâncias e também ficou explicado como a acupuntura pode diminuir ou acabar com a dor, liberando estas substâncias analgésicas endógenas.

A acupuntura pode, às vezes, curar, em uma única sessão, dores que atormentam a vida de pacientes que vinham sofrendo por horas, dias, meses ou anos.
Na Medicina Tradicional Chinesa, a acupuntura é uma grande ferramenta para manter a saúde ou trazer a saúde perdida aos pacientes.

Mas a MTC apresenta ainda outras técnicas complementares, como a ventosa, a moxabustão, a aurículo-acupuntura, a massagem (Tui-na), a automassagem, a eletro-acupuntura, a laser-acupuntura, o tai-chi-chuan, o Ti-kun, a fitoterapia, a meditação, a hidroterapia, as técnicas respiratórias e a terapia das flores.

Tanto a acupuntura como todas estas técnicas complementares podem auxiliar muito o paciente acometido de câncer.

Estudos mais recentes têm comprovado que a acupuntura pode ajudar a modular o sistema imunológico, de modo semelhante ao efeito do Interferon.

Outros trabalhos têm demonstrado a ajuda aos pacientes com câncer para:

  • Diminuir ou acabar com a dor.
  • Diminuir ou acabar com os efeitos colaterais indesejáveis da quimioterapia como a náusea, vômito, diarréia, desidratação e quando mais complicado, os distúrbios hidroeletrolíticos.
  • Diminuir o linfedema.
  • Melhorar a imunidade.
  • Melhorar a disposição e o ânimo.
  • Aumentar a alegria de viver.

A proposta de utilizar a acupuntura e outras técnicas da MTC no tratamento do paciente com câncer é de servir como um complemento ao tratamento convencional.

Fonte: OncoGuia

Acupuntura provê maior alívio as dores crônicas, afirma pesquisa alemã

Segundo resultados de pesquisa realizadas pelo Instituto de Acupuntura Alemã (GERAC), o método oferece melhores resultados diante de dores crônicas do que os tratamentos convencionais.

As pesquisas da GERAC envolveram 1.162 pacientes que padeciam de doenças e dores crônicas por uma média de oito anos. Aleatoriamente, todos eles foram submetidos a tratamentos de acupuntura baseados na medicina tradicional chinesa; na acupuntura alternativa baseada em pontos não compreendidos pela acupuntura tradicional chinesa; ou em terapias convencionais com drogas, terapias e exercício.

Depois de seis meses, ao redor de 48% daqueles que estavam sob o tratamento da genuína acupuntura reportaram melhora na sua condição.

Ao redor de 44% dos que estavam sob o tratamento da acupuntura alternativa, disseram que haviam experimentado melhora similar, contrastando com somente 27,4% daqueles que foram tratados com a medicina convencional.

Os resultados do estudo, realizado por Michael Haake e sua equipe na Universidade de Regensburg, foram publicados na revista médica Archives of Internal Medicine (Arquivos de Medicina Interna). Esse é o estudo mais extenso conhecido até o momento no que se refere ao alívio da dor através da acupuntura.

Na China antiga, acreditava-se que a medicina tradicional chinesa é um legado de seres divinos e que tem características extraordinárias devido a essa ligação superior com o universo.

Fonte: Epoch Times

Um olhar ocidental sobre a ação da acupuntura

Artigo elaborado baseado em partes do Trabalho de Conclusão de Curso, Autora do artigo: Profa. Larissa A. Bachir Polloni – CETN

Durante milênios acreditou-se que o mecanismo de ação da acupuntura fosse puramente energético. Marques (2009) fala que estes conceitos remontam há aproximadamente 5.000 anos atrás, surgindo da observação, por parte dos chineses, da natureza em comparação com o homem a fim de entender os princípios que regem os universos, externo e interno do ser humano. No entanto, com a difusão da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) no ocidente, muitos pesquisadores começaram a questionar sobre a participação de estruturas orgânicas no mecanismo de ação da acupuntura, e o desenvolvimento de pesquisas nessa área, principalmente nas últimas décadas, evidenciou estreita relação entre os efeitos da acupuntura e o sistema nervoso central (SNC) e o periférico (ONETTA, 2005).

Atualmente, na concepção neurofisiológica de ação da Acupuntura, observou-se que as agulhas agem, principalmente sobre as fibras nervosas A – delta e C, desencadeando potencial de ação na membrana destas fibras cujo estímulo segue até a medula espinhal, por onde através de séries de sinapses podem estabelecer arcos reflexos, estimular os neurônios pré-ganglionares e projetar-se através dos tractos espinorreticular e espinotalâmico para o encéfalo (YAMAMURA et al,1996). Assim sendo, ocorre a liberação de neurotransmissores, como bradicinina e histamina, e os estímulos são conduzidos ao SNC pelas fibras A-delta, espessas e mielinizadas, e pelas fibras C, finas e amielínicas, localizadas na pele e nos músculos. As fibras A-delta, ao terminarem no corno posterior da medula, estimulam os neurônios encefalinérgicos por meio de sinapses a liberarem encefalina, bloqueador da substância P (neurotransmissor que estimula a dor), inibindo, assim, a sensação dolorosa. Os estímulos continuam por meio principalmente do trato espinotalâmico lateral (TEL), até o tronco encefálico, liberando serotonina, que será responsável pelo aumento dos níveis de endorfina e de ACTH (hormônio adenocórtico-trófico) e, conseqüentemente, de cortisol nas supra-renais, garantindo assim o efeito benéfico da acupuntura no estresse e na ansiedade do paciente. Esse processo segmentar – via da dor – é o modo de ação mais simples e provável para explicar as modulações das funções orgânicas por meio da acupuntura (ONETTA, 2005).

Ainda Zhang et al (2003) diz que a aplicação de agulhas superficialmente sobre a pele ou mais profundamente atingindo tecidos musculares, nervosos, ligamentos ou ossos, provoca um tipo de estimulação sensorial vinda da estimulação seletiva de pequenas áreas chamadas de acupontos. O acuponto é uma região da pele em que há uma grande concentração de fibras nervosas espinhais. São pontos altamente vascularizados e inervados, resultando numa baixa resistividade elétrica local. O tecido lesado pela Acupuntura produz as mesmas características de um processo inflamatório; a inserção de agulha estimula a liberação de peptídeos, substância P, histamina, bradicininas e enzimas proteolíticas que culminam com o aumento da irrigação sanguínea local. E, juntamente com o aumento da irrigação sanguínea, há um aumento de serotonina, prostaglandinas e células de defesa do organismo.

Outra região do SNC que já observou-se ter uma relação com os mecanismo de ação da acupuntura foi a formação reticular (ou sistema reticular ativador ascendente – SRAA); que consiste em grupos de neurônios e fibras neurais que comunicam os núcleos cerebrais entre eles e com centros subcorticais, centros talâmicos, centros do cerebelo, centros mesencefálicos, medula oblonga e medula espinhal. Funcionalmente, controlam os mecanismos reguladores do sono, tônus muscular, nível de consciência, ritmo cardíaco e respiratório, tônus vasculares, mediando as funções motoras, autonômicas e sensoriais. No nível dos núcleos da formação reticular é conduzida quase toda a informação a respeito da sensibilidade e ritmos. Informações que são analisadas quantitativas e qualitativamente mediando à dimensão afetivo-motivacional da experiência dolorosa e da relação comportamental da dor, tornando fundamental o papel da formação reticular na percepção e na modulação da dor. Observa-se ainda que a ativação da formação reticular regula o nível das funções basais do SNC de acordo com a informação que recebe das vias sensoriais. A ação dos mecanismos homeostáticos da formação reticular pode ser conseguida apenas com a estimulação sensorial como a inserção de agulhas na pele pela acupuntura. Dessa forma a inserção da agulha pode atuar como estímulo mecanoceptivo modulando o estímulo sensitivo doloroso periférico quando é enviado até a medula, e assim, impedir a transmissão do impulso e a seqüência de sinapses até os centros superiores.

Também a liberação de endorfinas para o líquido cefalorraquidiano durante o uso da acupuntura e de seus efeitos analgésicos explicaria as conclusões chinesas de que esta técnica libera uma substância inibidora da dor, estando presente, também no líquido cefalorraquidiano (ANDRADE et al., 2004). Relata-se que quando o líquido cefalorraquidiano de um coelho submetido à Acupuntura é transferido para outro coelho não tratado, o animal receptor mostrava alteração na sensibilidade à dor semelhante a do animal tratado com acupuntura.

Fonte: CETN

Benefícios da acupuntura para o tratamento de enxaqueca (vídeo)

Veja uma reportagem do Globo Repórter sobre os benefícios da acupuntura no tratamento de  enxaqueca.

 

 

Pesquisa comprova que acupuntura reduz o estresse

Criada há mais de dois milênios na China, a acupuntura é um dos tratamentos médicos mais antigos do mundo. A técnica de estimulação de pontos específicos do corpo por meio da aplicação de agulhas rompeu as fronteiras da Ásia, cruzou oceanos e hoje é largamente utilizada em todo o mundo para reduzir dores, promover o equilíbrio do organismo e combater o estresse crônico. No entanto, se os benefícios são evidentes, o mecanismo de ação da prática ainda não foi totalmente compreendido. Na busca por decifrar as bases moleculares por trás das espetadas, pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, realizaram testes em animais e concluíram que a acupuntura pode reduzir significativamente a liberação, no sangue, de substâncias ligadas ao estresse. Os resultados foram publicados no periódico Journal of Endocrinology.

Ladan Eshekevari, principal autora do estudo, conta que seu interesse pelo tema surgiu da experiência clínica. “Notei que muitos dos meus pacientes nos quais aplicava acupuntura para tratar dores relatavam sinais de alívio do estresse, como hábitos de sono melhor e maior capacidade de lidar com o sofrimento físico, entre outros. Então, pensei que, talvez, eu estivesse afetando as vias de estresse em vez das de dor”, revela Eshekevari, que é fisiologista, enfermeira anestesista e acupunturista certificada. Ela resolveu, então, projetar uma série de estudos em camundongos para testar o efeito da acupuntura elétrica nos níveis de proteínas e hormônios secretados como resposta ao estresse. “Usei eletroacupuntura, porque ela me garante que cada animal recebeu a mesma dose de tratamento”, explica a pesquisadora.

Wu Tu Hsing, professor de medicina tradicional chinesa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explica que o estimulador elétrico é utilizado quando se deseja potencializar o efeito da agulha. “Assim, você consegue explorar o máximo de efeito em determinado ponto. É como se você aumentasse a dose.” O professor esclarece que o estimulador elétrico é raramente utilizado, entrando em cena quando há pouca resposta ao estímulo manual, como nos casos de artroses.

Pontos
Nos experimentos, Eshekevari utilizou quatro conjuntos de ratos. O grupo de controle não foi submetido a situações estressantes nem recebeu tratamento. O segundo era formado por camundongos submetidos ao estresse induzido por temperaturas rigorosamente baixas, mas que não foram tratados. Já o terceiro, também estressado, recebeu acupuntura em um ponto falso, chamado Sham. Por fim, o quatro conjunto de indivíduos recebeu agulhas no ponto Zusanli, uma região em que o efeito da acupuntura costuma ser observado.

De acordo com a pesquisadora, esse ponto foi escolhido porque, além de ser muito forte na medicina tradicional chinesa, é de fácil acesso, mesmo quando o rato está acordado. Wu Tu Hsing, da USP, explica que, em humanos, o ponto é bastante utilizado para alívio da dor e tratamento de problemas no sistema digestório. Ele se localiza na perna, abaixo do joelho, entre a fíbula e a tíbia, sendo conhecido também como E36, ou ST36.

Durante 10 dias, a equipe de Eshekevari mediu no sangue os níveis de hormônios secretados pelo eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), que inclui o hipotálamo, a hipófise e a glândula adrenal. As interações entre esses órgãos são responsáveis por controlar as reações ao estresse e regular a digestão, o armazenamento do sistema imunológico, o humor, as emoções, a sexualidade e a energia. Segundo o estudo, a resposta clássica ao estresse crônico consiste de uma interação entre duas importantes vias: o sistema nervoso simpático (SNS) e o HPA. A ativação crônica dessas vias pode levar à má adaptação das condições homeostáticas, causando sintomas ou doenças como a ansiedade, depressão e obesidade, que podem ainda ter um impacto direto sobre as doenças cardiovasculares e a hipertensão.

Além dos hormônios secretados pelo HPA, os pesquisadores também mediram os níveis de NPY, um peptídeo liberado pelo sistema nervoso simpático em roedores e seres humanos. Esse sistema está envolvido na resposta de fuga ou de luta ao estresse agudo, resultando na constrição do fluxo de sangue para todas as partes do corpo, exceto para o coração, os pulmões e o cérebro (órgãos mais necessários para se reagir aos perigos). O estresse crônico, no entanto, pode causar aumento da pressão arterial e doença cardíaca. “Descobrimos que a acupuntura eletrônica bloqueia o estresse crônico induzido por elevações dos hormônios do eixo HPA e na via de NPY”, revela Eshekevari. Ela acrescenta que os ratos que receberam a acupuntura elétrica no ponto falso tiveram uma elevação dos hormônios análoga à dos animais de estressados.

De acordo com Ângela Tabosa, vice-chefe do Setor de Medicina Chinesa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o modelo de estresse por frio em ratos é referendado pela ciência experimental como uma boa aproximação do estresse crônico em humanos. “Existe o estresse agudo e o crônico. O agudo está muito relacionado à luta ou à fuga. O indivíduo é exposto a uma situação de perigo, o organismo produz uma série de substâncias que o preparam para lutar ou fugir. Há vários modelos animais de estresse agudo, e as substâncias são um pouco diferentes de quando ele é submetido ao estresse crônico”, detalha Tabosa. Segundo ela, o crônico é aquele que não é tão impactante, mas, apesar de ser menor, é repetitivo. “Parece-se mais com o que acontece no dia a dia, devido ao trânsito ou a um chefe muito exigente. Para simular o estresse crônico, existem alguns modelos, como o frio. Você não pode repetir exatamente o que seria para o ser humano, mas você cria condições desagradáveis para as quais o rato já fica preparado”, explica.

Confirmação
A acupuntura funciona por meio do estímulo de terminações nervosas em diversas partes do corpo. Esses estímulos são levados ao sistema nervoso central, onde são interpretados pelo cérebro, que responde com a liberação de substâncias que caem na circulação sanguínea. De acordo com Hsing, as substâncias mais estudadas nessa resposta são a endorfina, a cortisona e a serotonina. “Algumas delas dão um pouco de sono, o que explica o efeito calmante e de alívio da dor.” O professor explica que 80% das pessoas que buscam a acupuntura normalmente querem tratar alguma dor, como as de cabeça ou musculares. A ansiedade e o estresse também aparecem com frequência.

Ladan Eshekevari espera obter os mesmos resultados do estudo em humanos e ampliar a aceitação da terapia chinesa. “Para quem trabalha com acupuntura, o resultado é mais uma comprovação. Os mecanismos da ação da acupuntura já têm sido bem estudados desde o fim da década de 1980”, diz Tabosa. Para ela, a questão principal do artigo é conseguir comprovar a eficiência da acupuntura real em comparação com falsos pontos. Além disso, o trabalho reforça que o efeito da técnica é cumulativo, ou seja, a diferença na redução dos hormônios estressores ficou maior ao longo dos dias. “Existem técnicas que são utilizadas em pronto atendimento, mas, para o tratamento de uma doença, você precisa de uma série de aplicações”, ressalta Tabosa.

Experimento
Trinta e quatro ratos adultos foram divididos em quatro grupos distintos:

Grupo 1 (de controle)
não foi estressado e não recebeu nenhum tratamento

Grupo 2
foi submetido a temperaturas rigorosamente baixas durante uma hora pelo período de 10 dias, mas não recebeu acupuntura

Grupo 3 (experimental)
os ratos sem estresse receberam estímulos em um ponto Sham*, próximo ao rabo, bilateralmente. As agulhas foram aplicadas nos 10 dias imediatamente anteriores à exposição ao estresse pelo frio

Grupo 4 (experimental),
durante os quatro dias anteriores ao estresse pelo frio, os ratos foram pré-tratados com o estímulo no tradicional ponto ST 36, ou zusanli. Eles continuaram a receber acupuntura no mesmo ponto durante mais 10 dias após o estresse. O ST 36 localiza-se na perna, perto da rótula e da tíbia

* Ponto Sham é também conhecido por falsa acupuntura. As agulhas são colocadas em regiões que não são pontos reais da técnica. Normalmente, esse artifício é utilizado como base de comparação, para saber se os resultados positivos foram realmente oriundos dos estímulos nos pontos de acupuntura, ou pela simples picada

Fonte: Saúde Plena (Uai)

A potência da acupuntura

A acupuntura já se consagrou como método eficiente para aliviar dores. Agora, embasada por sólidas pesquisas científicas realizadas em todo o mundo, suas aplicações começam a se expandir. A prática é usada contra doenças como a depressão, na recuperação de sequelas de acidente vascular cerebral e até em procedimentos de beleza. O avanço do método, nascido na China, em terras ocidentais é consequência de algumas transformações ocorridas nos últimos anos. A primeira foi a demanda crescente por técnicas que melhoram a saúde sem a necessidade de se recorrer a remédios. A acupuntura se ajusta perfeitamente nesse quesito. A segunda deve-se ao fato de que a medicina finalmente encontrou meios de avaliar com mais refinamento científico o efeito das agulhas no organismo. Hoje, os cientistas estão recorrendo a testes moleculares e ao que há de mais avançado em tecnologia diagnóstica, como os exames de imagem (a exemplo da ressonância magnética funcional, que permite ver o cérebro em movimento), para obter respostas.

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As pesquisas se dividem em duas grandes áreas. Uma mensura o impacto da técnica no alívio dos desconfortos associados a diversas doenças. Outra elucida os mecanismos neurofisiológicos por meio dos quais a inserção das agulhas em pontos específicos promoveria os benefícios. “Dessa abordagem estão surgindo dados que descrevem como a técnica funciona, incentivando a ampliação das situações às quais ela comprovadamente se aplica”, diz o clínico-geral Alexandre Yoshizumi, presidente do Colégio Médico de Acupuntura de São Paulo. Ele participou de um estudo sobre dor lombar conduzido por Tatiana Hasegawa e orientado pelo médico Jamil Natour, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que foi publicado na prestigiosa revista científica “British Medical Journal”.

Respaldada nesses achados, a acupuntura se firma em áreas fora de sua terra natal, nas quais não se cogitava sua participação. Uma dessas atribuições mais originais é o auxílio na regulação do funcionamento do sistema cardiovascular. “Estamos começando a compreender como a prática age na hipertensão e reduz problemas como a isquemia do miocárdio”, explica John Longhurst, da Universidade da Califórnia (Eua). Ele assina uma revisão de estudos experimentais sobre a utilização da técnica no combate de enfermidades cardíacas.

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A isquemia consiste na diminuição do afluxo de sangue numa parte do organismo, ocasionando consequente redução de oxigênio e de nutrientes na região. No caso citado por Longhurst, a isquemia afetou o miocárdio, o músculo do coração. O que se sabe é que a acupuntura promove um aumento na liberação de hormônios com poder de excitar ou inibir o ritmo de trabalho do sistema nervoso central. Isso pode incentivar a melhor irrigação sanguínea dos tecidos.

Outra análise, empreendida por acadêmicos chineses, examinou quatro importantes trabalhos sobre a prática e a hipertensão. Verificou-se que a acupuntura atua como coadjuvante e reduz a pressão em pacientes que tomam anti-hipertensivos, mas que, com os remédios, não obtêm mais progressos. Se pela medicina chinesa o efeito surge do reequilíbrio das energias yin e yang, a ciência ocidental indica que as agulhas influem positivamente no sistema renina-angiotensina (importante na regulação da pressão) e modulam a atividade endócrina, diminuindo a produção das substâncias aldosterona e angiotensina II. Os dois mecanismos estão na base do processo da hipertensão.

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Um impacto também comprovado mais recentemente ocorreu na recuperação de pacientes com sequelas motoras e cognitivas após acidentes vasculares cerebrais (AVC). “O método é eficaz nesses casos”, diz o médico Wu Tu Hsing, diretor do Centro de Acupuntura do Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC/SP). Hsing é responsável por um estudo publicado há pouco tempo sobre o tema. O médico selecionou 60 pacientes que haviam sofrido AVC e apresentavam dificuldade de movimento nas pernas. O grupo foi dividido em dois. Um recebeu a aplicação das agulhas. Outro foi submetido à acupuntura placebo (simula-se sua aplicação). A experiência durou dez semanas, com duas sessões semanais. “Os que foram tratados de verdade manifestaram melhora de 20% em relação aos outros”, informou o pesquisador. Hoje, o HC/SP – referência em pesquisa médica no País – oferece sessões do método para ajudar na recuperação de AVC. A rede de Reabilitação Lucy Montoro, em São Paulo, também utiliza a prática como recurso complementar aos tratamentos convencionais.

Há um esforço imenso para descobrir as reações por trás da recuperação motora e de outras capacidades funcionais prejudicadas por causa de um AVC ou de uma paralisia cerebral – outra condição para a qual a prática demonstra benefícios. Uma das equipes empenhadas em esclarecer essas dúvidas é a da Universidade Bastyr (Eua). Lá, os cientistas criaram agulhas feitas de um material especial para avaliar as respostas cerebrais decorrentes da eletroacupuntura. Derivada da acupuntura tradicional, a técnica consiste na aplicação de corrente elétrica através das agulhas inseridas em pontos do corpo. As tais agulhas permitem que os cientistas investiguem os efeitos das descargas elétricas sem que haja interferência dos campos magnéticos de aparelhos de imagem que mostram o cérebro em funcionamento. “Encontramos a ferramenta certa para investigar. Isso possibilitará avanços e um grande número de estudos”, disse a pesquisadora Leanna Standish, que coordena o trabalho.

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O aprimoramento das pesquisas ajudará a pautar o uso da técnica na terapia das doenças mentais. Por ora, o que se tem são estudos que constatam associação proveitosa contra a depressão, de forma complementar aos remédios. Pesquisadores da Universidade Southern, na China, por exemplo, compararam a eficácia da eletroacupuntura combinada a um antidepressivo com a da terapia feita apenas com remédio. “A acupuntura acelera o início do efeito terapêutico da medicação contra sintomas depressivos, ansiosos e do transtorno obsessivo compulsivo”, disse Yong Huang, líder da pesquisa. O estudo saiu na revista científica “Neural Regeneration Research”.

Outra experiência, feita na Universidade de York, na Inglaterra, constatou que a prática pode ser tão eficaz na contenção dos sintomas quanto o aconselhamento psicológico. A conclusão foi obtida após a análise de 755 pacientes com depressão moderada e severa. “As pessoas que têm depressão, que tentaram várias opções médicas e que não estão obtendo benefícios deveriam tentar a acupuntura ou o aconselhamento como opções de ajuda que se mostraram agora clinicamente efetivas”, afirmou Hugh ­MacPherson, coordenador do estudo.

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Um experimento singular na área de doenças psiquiátricas também chama a atenção. A técnica foi empregada de forma pioneira no tratamento da esquizofrenia, enfermidade que até hoje representa um grande desafio para a medicina. A descrição do caso foi feita por pesquisadores da Radboud University Nijmegen, na Holanda. Os cientistas incluíram sessões de acupuntura às intervenções terapêuticas indicadas a uma mulher de 63 anos com esquizofrenia crônica. Entre outros sintomas, ela sofria de dores físicas em consequência de uma alucinação persistente sobre um pássaro preto que a bicava sem parar. Ao final de três meses, ainda que as alucinações persistissem, a paciente se sentia menos perturbada e suas dores, curiosamente, haviam diminuído bastante. A qualidade do sono melhorou e viu-se que traços depressivos foram amenizados. Para a cientista Peggy Bosch, que conduziu o trabalho, os resultados obtidos sugerem que a acupuntura pode ser uma ferramenta adicional para tratar a enfermidade.

A curiosidade científica está levando a outras descobertas sobre o potencial da técnica. Exemplo disso é a pesquisa feita pelo imunologista Luis Ulloa, da New Jersey Medical School (Eua). Para conferir o poder anti-inflamatório da eletroacupuntura, ele aplicou a técnica em cobaias com sépsis, doença infecciosa grave que pode causar também uma intensa reação inflamatória – esta última, na verdade, responsável por boa parte das mortes causadas pela enfermidade. “Usamos a eletroacupuntura para ativar os nervos ciático e vago e a glândula adrenal, elevando a produção de dopamina pela adrenal”, disse à ISTOÉ o cientista Juan Manuel Rico, da equipe de Ulloa. “Estudos mais atuais mostram que essa glândula não funciona bem em grande parte dos pacientes com septicemia. Vimos também que, sem ela, os ratos não reagem à eletroacupuntura”, explica Juan Manuel. O resultado foi que, a partir da estimulação dos pontos, houve a inibição da produção de substâncias do grupo das citocinas que estão associadas à inflamação.

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Um fenômeno positivo igualmente surpreendente é o que se vê na área da medicina esportiva. “A prática dá ótimos resultados tanto para recuperar atletas como para aumentar a performance física”, assegura o clínico-geral Alexandre Yoshizumi, de São Paulo. Um levantamento feito por pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina e do Centro Universitário de Maringá, ambos no Paraná, endossa a afirmação do médico. Após reunirem mais de 20 trabalhos científicos com atletas de diferentes modalidades, como ciclismo, handebol, basquete e velocistas de alto rendimento, os cientistas concluíram que a prática pode ser usada para aprimorar aspectos como velocidade, força de explosão, resistência e outras capacidades relacionadas ao desempenho esportivo. Os autores da revisão vão além. Eles defendem que um acupunturista desportivo já deveria estar presente nas equipes de alto rendimento, a fim de melhorar a performance final dos atletas.

Uma das explicações para esse tipo de efeito emergiu do trabalho feito pela pesquisadora japonesa Akiko Onda, da Escola de Ciências do Desporto da Universidade de Waseda, no Japão. Por quatro anos, ela estudou, em cobaias, os efeitos da acupuntura a nível molecular (na expressão dos genes) para conter a perda muscular. “Comprovamos que a técnica reduz a atrofia da musculatura esquelética, aquela que se liga aos ossos”, disse Akiko à ISTOÉ. De acordo com a pesquisadora, esse desfecho é consequência da ação das agulhas na expressão de genes associados a esse processo. O próximo passo será realizar o estudo em seres humanos.

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A exploração dos benefícios do método envolve também formas menos ortodoxas do que a conhecida introdução das agulhas. O ortopedista e acupunturista André Tsai, coordenador do curso de especialização em acupuntura da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, por exemplo, está utilizando fios cirúrgicos chamados CatGut (pronuncia-se catigu) para tratar a obesidade. A técnica está difundida nos Estados Unidos. “Insiro os fios, com a ajuda das agulhas, sob a pele, em pontos de acupuntura para ajudar no controle da ansiedade e do apetite”, diz Tsai. Como são feitos de material absorvível pelo organismo, não precisam ser retirados. “Os efeitos variam a cada paciente”, diz Tsai. “Evidentemente, o método não pode ser usado por pessoas que ainda não foram avaliadas por um médico para saber se apresentam doenças associadas ao excesso de peso”, ressalva.

A eficácia da prática contra o excesso de peso está evidenciada por várias pesquisas científicas. Entre elas, estão os resultados obtidos em um estudo publicado no jornal especializado “Acupuncture in Medicine”. No trabalho, foi constatado que a marcação de cinco pontos na orelha relacionados ao acúmulo de gordura (estariam vinculados à fome, ao estômago e ao sistema endocrinológico, entre outros) reduziu em 6% o Índice de Massa Corporal (IMC) de indivíduos com sobrepeso e obesos que participaram do experimento. Quando o estímulo foi aplicado em um único ponto (o da fome), a diminuição foi de 5,7%.

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NOVAS FRONTEIRAS
O médico Alexandre Yoshizumi, de São Paulo, usa a técnica
contra sequelas de AVC e lesões esportivas

Até áreas relegadas a segundo plano estão sendo revisitadas pelos médicos com formação em acupuntura. Na Universidade Federal de São Paulo, por exemplo, investigam-se os resultados do uso das agulhas para problemas estéticos como rugas faciais, flacidez nos braços, no pescoço, na parte interna da coxa, olheiras e cicatrizes de acne. Os ganhos são creditados à melhora da circulação sanguínea, da oxigenação e, acrescentando uma pitada de cultura chinesa, da energia vital circulante no local em consequência dos estímulos da eletroacupuntura. “Trabalhos realizados em nosso ambulatório confirmam clinicamente uma melhora na elasticidade. Indiretamente, isso mostra que ocorreu uma produção adequada de colágeno, embora isso não tenha ainda sido comprovado cientificamente”, relata a dermatologista Maria Assunta Nakano, responsável pelo Ambulatório de Acupuntura em Dermatologia do Setor de Medicina Chinesa da Unifesp. O colágeno é uma proteína fabricada pelo organismo e é responsável por dar sustentação à pele. A médica também adverte que só há benefício para rugas menos profundas.

A instituição paulista, que há três anos implantou um ambulatório de acupuntura voltado apenas para crianças, promete reforçar seu pioneirismo na área. “Em breve faremos estudos em humanos para analisar a eficácia das agulhas na prevenção de doenças em pessoas com graves problemas renais”, informa o médico Ysao Yamamura, introdutor do método na instituição.

Fotos: João Castellano/Ag. Istoé, Pedro Dias, João Castellano –Ag. Istoé, Gabriel Chiarastelli; Rob Forman

Fonte: IstoÉ

Confira a história da medicina tradicional chinesa

Baseada na integração do homem com o Universo e no fluxo de energia vital pelo corpo, a medicina tradicional chinesa segue princípios praticamente intocados há cinco milênios

Na China de milhares de anos atrás, um soldado sentia terríveis dores de cabeça. Certo dia, numa batalha, levou uma flechada no pé. Depois que um curandeiro retirou a seta e tratou a ferida, as persistentes enxaquecas do guerreiro desapareceram como por encanto. Intrigado, o sábio experimentou espetar espinhos e fez uma relação entre a área do ferimento, próxima ao tendão de aquiles, e o alívio de dores localizadas em outras regiões, mesmo distantes, na cabeça. Assim, aprendeu a tratar diversos problemas de saúde usando o mesmo artifício: acionar pontos-chave do corpo.

Esse relato, sem nenhuma referência de data ou local, se estabeleceu no imaginário popular como a descoberta da acupuntura, a faceta mais conhecida da medicina tradicional chinesa (MTC) entre os ocidentais. A história não passa de lenda: há variações dela em que o soldado vira caçador, a flecha, um dardo, e por aí vai. O que existe de concreto é que, no lugar exato da descrição do ferimento do tal soldado, a acupuntura assinala um ponto chamado kunlun (Bexiga 60), que tem propriedades analgésicas. Por ele, passa um caminho, um meridiano que começa no canto do olho e termina no pé (meridiano da Bexiga).

Praticados ainda hoje, os princípios da MTC foram estabelecidos há cerca de 5 mil anos. Baseados no conceito de que a saúde do homem é fruto do equilíbrio da energia vital, os chineses desenvolveram os métodos terapêuticos que compõem seu repertório: além da acupuntura, há a farmacologia (o uso de plantas medicinais, derivados minerais e animas em forma de chás, extratos e cápsulas), a dietoterapia (que combina basicamente térmica e sabores dos alimentos), as massagens (tui ná) e os exercícios físicos, como o tai chi chuan e o lian gong.

Esses princípios se baseiam na concepção do Universo segundo o taoísmo, conjunto de tradições filosóficas e religiosas inauguradas pelo mestre Lao Tsé, um contemporâneo de Confúcio, que teria vivido no século 6 a.C. A filosofia do tao (“caminho”, em chinês), segundo a qual a natureza é harmônica e organizada, mas está em constante mutação, influenciou fortemente o budismo e o confucionismo, outras fontes da medicina chinesa. Na visão dos orientais, tudo o que existe no Universo é feito de energia, inclusive o ser humano. Para que haja saúde física e mental, a energia deve fluir e circular pelo corpo em equilíbrio e harmonia – os dois estados responsáveis pela ordem das coisas na natureza. “Quando há bloqueio ou estagnação de energia no organismo, surgem as doenças”, diz o médico Ysao Yamamura, chefe do setor de medicina chinesa e acupuntura da Unifesp. Sob essa perspectiva, nenhuma parte do corpo ou da psique pode ser levada em conta individualmente.

Os orientais chamam essa energia universal de Qi (pronuncia-se tchí). Por volta do ano 50 d.C., o filósofo taoísta Wang Chong assim definiu a vida e a morte: “O Qi forma o corpo humano da mesma forma que a água se transforma em gelo. E, como o gelo derrete, o corpo que morre volta a ser espírito”. No século 11, outro filósofo, Zhang Zai, deu uma definição semelhante: “Um nascimento é a condensação do Qi; a morte, sua dispersão”.

“Não existe lugar onde o Qi não esteja”, afirma, por sua vez, o livro Huang Di Nei Jing, ou Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo, antigo texto considerado até hoje a doutrina fundamental da medicina chinesa. Esse tratado de teoria e prática terapêutica foi estruturado em forma de perguntas e respostas: nele, Huang Di, o Imperador Amarelo, interroga o médico Qi Po sobre diversas questões ligadas à saúde. Não há consenso sobre a data de sua elaboração. Alguns especialistas estimam que sua origem esteja entre os séculos 4 a.C. e 2 d.C. Estranha é a enorme discrepância de datas entre a obra e seus protagonistas, já que o Imperador Amarelo teria vivido milênios antes, entre os anos 2698 e 2599 a.C. – a bem da verdade, nem se sabe ao certo se ele realmente existiu. A confusão se explica, em parte, pelo costume vigente na antiga China de atribuir a autoria de textos importantes a figuras históricas famosas. Nem vem ao caso: o Nei Jing tornou-se uma fonte essencial da medicina chinesa.

Os historiadores creditam ainda mais valor ao livro por constituir um marco do momento que a medicina dos orientais abandona um estágio primitivo de crenças baseadas na tradição xamânica, que atribuíam as doenças à ação de demônios (ou outros elementos sobrenaturais) e evolui para um embasamento filosófico que estabelece a influência sobre a saúde de fatores como dieta, estilo de vida, emoções e ambiente. “O Nei Jing ensina a colocar na prática médica os outros princípios do tao, como a dualidade yin e yang e a Teoria dos Cinco Elementos”, diz Helena Campiglia, professora de MTC e acupuntura da Universidade de McMaster, no Canadá.

Eminentes médicos, sábios e filósofos desenvolveram pesquisas e fizeram notáveis descobertas que foram acrescentadas às práticas terapêuticas. Um dos períodos áureos da medicina chinesa foi a época da Dinastia Tem (206 a.C. a 220 d.C.), marcada pelo pioneirismo em combate a venenos, uso de ervas medicinais, anestesia e suturas. Quase nada se sabe da vida de grande parte desses antigos mestres: tanto que, muitas vezes, não há consenso sobre as datas de nascimento e morte. Suas histórias quase sempre são permeadas por parábolas. Os tratados que legaram à posteridade, porém, são concretos e lançaram bases para a medicina praticada ainda hoje.

Plantas, pulso e língua

A fitoterapia é um dos métodos terapêuticos mais difundidos no mundo ocidental. Um dado interessante é que as fórmulas chinesas costumam combinar três ou mais plantas: é raro uma erva ser usada sozinha. “Os chineses levam em consideração que cada planta tem o poder de atenuar ou potencializar o efeito de outra”, afirma o professor Ysao Yamamura. De acordo com a tradição inspirada na realeza da antiga China, no topo da fórmula está a erva mais forte ou poderosa contra o desequilíbrio ou a patologia, considerada o “rei” ou “imperador”, e, abaixo dela, as plantas que são “ministros” e combatem aspectos secundários do problema. Em seguida, as “assistentes” aumentam ou diminuem a ação do “imperador” ou aliviam seus possíveis efeitos colaterais nocivos. Pode haver ainda uma que atua como “mensageira” entre os vários escalões, focalizando a ação medicinal num órgão ou canal de energia específico.

Por volta do ano 200, o médico Wang Shuhe, discípulo de Zhang Zhongjing, escreveu o primeiro tratado de pulsologia – método de diagnóstico por meio da artéria do pulso -, em que identifica 24 tipos de pulsação, discorrendo sobre o assunto em nada menos do que 350 páginas. “A técnica provavelmente surgiu da necessidade de o médico fazer o diagnóstico quando era proibido ver as mulheres na corte imperial”, afirma Helena Campiglia. “Por meio do pulso, consegue-se avaliar a condição de órgãos como estômago, fígado e coração, entre outros.”

Outra forma de diagnóstico que parece curiosa aos olhos ocidentais, a observação da língua, surgiu em algum momento durante a Dinastia Shang (1600 a 1000 a.C.). Na visão chinesa, por ter contato com o ar, a língua é considerada um órgão externo e nas suas diferentes regiões também estão representadas outras partes do corpo. A avaliação da face do paciente, outra parte importante das consultas médicas, se desenvolveu entre os anos 500 e 300 a.C. Segundo esse tipo de análise, existem correspondências entre as regiões do rosto e os órgãos vitais. A condição do coração, por exemplo, se revela na testa.

Nessa época, também floresce um sistema de saúde em que atuavam médicos de diversos níveis de status, aprendizes e farmacêuticos. Já durante a Dinastia Chin (265 a 420), foi criada uma universidade imperial, que já contava com a medicina entre as disciplinas. Um pouco mais tarde, várias invenções chinesas, como a imprensa, a bússola e a pólvora, assinalavam o período da Dinastia Song (960 a 1279), que ficou marcado também pela atuação de sábios polivalentes, como o pediatra Qian Yi, que fez várias descobertas sobre o combate a doenças como sarampo e escarlatina.

Intercâmbio

Só faltava esse manancial de informação chegar ao Ocidente. Isso aconteceu a partir do século 13 (época em que a Europa vivia assolada pela peste e por outras pragas), principalmente por meio dos padres jesuítas portugueses que se dedicavam à catequese no Japão. Eles levaram aos continentes europeu e africano alguns fundamentos da “medicina exótica” que se praticava ali. Nos séculos 16 e 17, a medicina das ervas e agulhas experimentou um boom entre os ocidentais, propagada por médicos residentes nas terras do Oriente. O Grande Tratado de Matéria Médica, de autoria do médico Li Shizhen, chegou a ser traduzido para diversos idiomas. O interesse pelas práticas foi esfriando, porém, e assim permaneceu até as primeiras décadas do século 20, em parte por causa da crescente influência dos valores ocidentais sobre a cultura chinesa.

Por pressão inglesa, a China baniu suas tradições médicas em 1912. A revolução comunista liderada por Mao Tsé Tung resgatou o conhecimento milenar e ofereceu seus tratamentos na rede pública de saúde como uma forma de ampliar o atendimento à população. Apesar do regime fechado, Mao estimulou o intercâmbio de formação de especialistas em acupuntura, tui ná e outras técnicas com vários países. Coube a Georges Soulié de Morant um importante papel no resgate das terapias orientais: diplomata, ele viveu na China e traduziu para o francês, sua língua natal, vários livros sobre acupuntura, entre eles A Acupuntura Chinesa, de 1941. A modalidade voltaria à ordem do dia no Ocidente quando o jornalista James Reston, do The New York Times, espalhou nos anos 1970 que, graças às agulhadas precisas, havia tido uma convalescência rápida e indolor depois de operado de apendicite numa viagem à China. Na mesma época, os hippies aderiram às religiões orientais e as difundiram entre os jovens de todo o mundo – a fitoterapia e utras práticas acabaram disseminadas nessa onda.
Apesar da popularização, a MTC ainda encontra certa resistência na comunidade médica, baseada especialmente na falta de comprovação científica de resultados obtidos pelos tratamentos ou de seus mecanismos de funcionamento. “Mas há um avanço nessa aceitação”, diz Yamamura. O Brasil é um exemplo. Aqui, pode-se fazer pós-graduação na área e a acupuntura é reconhecida como uma especialidade médica pelo Ministério da Educação e Cultura, pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Federal de Medicina.

Clique na imagem para ampliar (Design: Everton Prudêncio/ Ilustração: Sandro Castelli)
Para os orientais, tudo o que existe pode ser associado a padrões. E a forma como os taoístas classificaram e organizaram a ordem do Universo se estabeleceu na Teoria dos Cinco Elementos. Por serem naturalistas, os filósofos adotaram elementos da natureza para identificar qualidades. Eles costumam ser também relacionados a cores, sabores, emoções, sentidos e órgãos. A medicina chinesa foi pioneira em identificar as consequências patológicas da somatização – defende que as doenças podem ser causadas pelas emoções, e vice-versa.

Clique na imagem para ampliar (Design: Everton Prudêncio/ Ilustração: Sandro Castelli)
De acordo com a Medicina Tradicional Chinesa, há 12 linhas principais por onde a energia vital percorre o corpo. “Para os chineses, a energia circula no homem pelos meridianos, caminhos distribuídos no corpo inteiro”, diz a médica Helena Campiglia, professora da Associação Médica Brasileira de Acupuntura e da Universidade de McMaster, em Toronto, Canadá. A acupuntura utiliza, segundo ela, cerca de 400 a 800 pontos identificados ao longo desses meridianos, que podem ser acionados para favorecer ou reter a circulação da energia, o que estaria por trás das doenças. Outras terapias chinesas também se apoiam na ideia dos meridianos, como a dietoterapia e massagens, como o tui ná.

Yin e yang

A união fundamental dos opostos

Observando a natureza, os taoístas notaram que, por trás dos aparentes caos e aleatoriedade dos fenômenos da natureza, existiam ciclos previsíveis, baseados na polarização de energias que, ao mesmo tempo em que se opunham, também se complementavam, o que foi batizado de yin e yang. Segundo a tradição chinesa, o Universo, antes de ser “uno”, dividiu-se em dois e depois em milhares, milhões e bilhões de partes. A primeira divisão, em yin e yang, encerrou os princípios básicos de tudo o que existe. “Essas polaridades também se definem e estão contidas uma na outra: luz e escuridão, inércia e movimento, contração e expansão, céu e terra, morte e vida, feminino e masculino, passivo e ativo, razão e emoção são alguns exemplos de polaridades yin-yang”, diz Helena Campiglia. Dentro dessa concepção, a vida só pode existir enquanto as duas forças estiverem em equilíbrio e o mesmo princípio se aplica aos conceitos de saúde e doença. Para a medicina chinesa, alguém saudável mantém o equilíbrio entre essas energias opostos.

Fonte: Guia do Estudante